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Um novo brinquedo se tornou fenômeno na internet e ganha a atenção de crianças e adultos: o Pop It. De silicone, ele faz parte de uma categoria chamada fidget toy, que significa brinquedo de inquietação, em tradução literal. O jogo sensorial chegou com a promessa de reduzir os níveis de ansiedade, melhorar a concentração e o raciocínio lógico de seus usuários, além de auxiliar no desenvolvimento de crianças e adolescentes que o utilizam. No entanto, apesar dos benefícios, especialistas alertam também sobre os riscos do uso excessivo do produto, pois pode sinalizar ausência de sentidos e mascarar sinais de ansiedade infantil.

Preços do Pop It variam de R$ 15 a R$ 80 na internet, dependendo de tamanho, formato e cores(foto: Freepik)

Popular mundialmente na rede social TikTok, o Pop It é vendido no comércio de rua e em sites de varejo do País. Com anúncios atrativos em plataformas de vendas, o brinquedo promete oferecer um “ótimo exercício para aquecimento cerebral, prevenção da degeneração do cérebro e alívio da tensão e do estresse“. Além de poder ser encontrado nos mais diferentes formatos e tamanhos, ser macio, relaxante e colorido, ele possui várias bolinhas que, ao serem apertadas, emitem um som muito parecido ao que se escuta quando um plástico bolha é estourado. A atividade acaba criando uma sensação prazerosa que ajuda a distrair quem a pratica.

De acordo com a doutora Ana Márcia Guimarães, membro do Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o estresse e a ansiedade precisam ser avaliados e, em alguns casos, é necessário o auxílio de profissionais para controle de qualquer patologia diagnosticada. No caso do Pop It, ele funciona apenas como uma ferramenta de alívio, não podendo ser considerado como a solução para qualquer possível problema de saúde mental.

“Quando você tira o foco das suas sensações e dos seus pensamentos ansiosos, focando em algo exterior ao seu organismo, como visualizando um ponto, pintando, colorindo ou até usando o Pop It, isso pode ser uma ferramenta que ajuda no controle da ansiedade e do estresse, porque alivia os pensamentos. Agora, o estresse e a ansiedade precisam ser avaliados para saber se necessitam de um tratamento médico propriamente dito”, explica Ana Márcia.

Apesar da parte boa, o Pop It tem despertado a atenção de especialistas que percebem perigo no uso não moderado e alertam quanto à necessidade de cuidado com a saúde mental dos usuários, principalmente quando são crianças. Ao contrário das promessas dos anúncios, a psicóloga Layza Castelo Branco, coordenadora do Serviço de Psicologia Aplicada da Universidade Estadual do Ceará (Uece), especialista em Psicologia da adolescência e doutora em Saúde Coletiva, acredita que as crianças não estão utilizando o Pop It para aliviar a ansiedade, mas apenas para colecionar e brincar, além de, muitas vezes, demonstrarem interesse pelo item em uma atitude desprovida de um interesse real.

A especialista pontua que, a título de comparação, pega-pega, além de uma excelente brincadeira motora, pode trabalhar aspectos psíquicos como frustração, esforço, raciocínio, atenção, percepção, além de ajudar na socialização. Já o Pop It, que pode ser também definido como um brinquedo que está na moda e em alta, gera a competitividade de quem tem mais, em suas mais variadas formas, cores e tamanhos.

“A moda, nas suas diversas apresentações, na maioria das vezes, representa cultura, passagem do tempo e representações sociais. Há modas que são vazias; há outras que denunciam, sem querer, adoecimentos sociais. O principal adoecimento denunciado na febre de compra de Pop It não é exatamente o aumento da ansiedade infantil, que se sabe realmente estar maior, mas denuncia, principalmente, vazios, ausência de sentidos e falta de diálogos”, explica Dra. Layza.

Ainda assim, pela grande capacidade de se reinventar, de ser criativa e de inovar nas brincadeiras, as crianças conseguem ver infinitas possibilidades em um só objeto. Segundo a psicóloga, o Pop It pode ser também utilizado para outros critérios que não sejam só o de ouvir o som que as bolinhas fazem. O brinquedo também pode ser usado para brincadeiras de competição de quem aperta mais delas em um menor intervalo de tempo, além de outros tipos de brincadeiras ou até para realizar trocas entre amigos.

Atenção aos excessos

O uso não moderado de telas, sejam tablets, celulares ou televisões, podem mascarar transtornos no sentido de que a criança busca, ao usá-los, um refúgio. É o que explica a doutora Ana Márcia Guimarães. O mesmo é válido para qualquer brinquedo, inclusive o Pop It: uma criança que não está bem, que não consegue brincar, que não tem criatividade, que não consegue socializar e que não quer, até mesmo, ir à escola, refugia-se no uso excessivo de objetos, sem que os pais, muitas vezes, percebam que ela está precisando de ajuda.

“Se a criança estivesse nos parquinhos, nas quadras, brincando com as outras crianças ou mesmo junto com a família, socializando, ela ia demonstrar o sofrimento e a inabilidade que ela está vivendo. Então, é uma oportunidade para a família perceber que a criança não está bem, que não está socializando, que está irritada e que está intolerante. Agora, se ela passa o dia todo trancada, isolada, com excesso de telas ou mesmo excesso de um outro brinquedo, então a família perde a oportunidade de observar essa criança no seu convívio social, na sua tolerância, no seu humor, e perceber sinais precoces de que alguma coisa não está bem”, explica a pediatra.

Além disso, o problema de excesso não se aplica somente ao tempo de uso de determinado brinquedo ou eletrônico, mas no uso repetitivo e excessivo do mesmo objeto também. De acordo com a Dra. Layza Castelo, uma criança pode querer ter várias versões do mesmo brinquedo, como o Pop It, por se sentir insegura diante de amigos, por não tirar notas boas na escola, por exemplo, achando, de forma fantasiosa, que será admirada pela “coleção”.

Outro exemplo pode ser aplicado aos filhos de pais separados, pois essa criança pode sentir falta da situação anteriormente vivenciada de “família completa” e passar a ter vazios existenciais, dúvidas sobre o futuro, angústias e ansiedades. “Por isso, adquirir tais objetos lhes dá a sensação momentânea e fugaz de preenchimento de uma falta. Tais exemplos são aplicados em crianças que já estavam com algum problema. Contudo, uma criança sem problemas prévios pode apenas querer porque os amigos têm e é bonitinho”, explica a psicóloga.

O uso moderado do Pop It

Aos 9 anos, Miguel Pitombeira já aderiu à nova moda no universo dos brinquedos e garantiu seu Pop It. Residindo na Capital cearense, ele possui apenas um item do objeto, não demonstrando, segundo a mãe, Virgínia Pitombeira, interesse em ter vários para colecionar cores, tamanhos e formatos diferentes do item.

Quando perguntado pela mãe sobre o motivo de gostar do brinquedo, Miguel explicou que é pelo barulho que as bolinhas do brinquedo fazem, um som similar ao de estourar plástico bolha. Detalhe que também faz Virgínia apertá-las sempre que encontra o objeto pela casa.

Apesar da sensação prazerosa oferecida pelo item, os responsáveis ainda não precisaram fazer um controle maior. “Hoje, ele está muito ligado às tecnologias, e o brinquedo não tem tirado ele do que ele mais gosta de fazer. Inclusive, ele brinca muito quando está assistindo a vídeos ou filmes, ele fica fazendo os dois juntos. Outra observação importante é que ele não lembra de levá-lo se for passear ou viajar. Ou seja, a brincadeira é só um passatempo mesmo”, explica Virgínia.

Por conta da pandemia pelo novo coronavírus e das mudanças trazidas por ela, como as aulas presenciais que passaram a ser remotas, a rotina de Miguel não é mais a mesma, principalmente  em relação às atividades escolares. Desse modo, Virgínia conta que estabeleceu horários para conciliar os estudos do filho com as brincadeiras, o uso de eletrônicos e até do Pop It. 

Nós seremos inventamos e depois dissemos que é perigoso.

Fonte: O Povo