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Quando o mundo ficou sabendo da morte de Michael Jackson, em decorrência de uma overdose em 2009, a notícia tinha uma aura de irrealidade em torno de si. Isso ocorreu em parte porque fazia tempo que tinha se tornado difícil lembrar que ele era uma pessoa de verdade.

Capa da revista Interview de 2009, criada pelo artista KAWS.

Capa da revista Interview de 2009, criada pelo artista KAWS.  Foto: KAWS via The New York Times

Prodígio mirim transformado em Peter Pan ao chegar à idade adulta – com uma recusa fantástica em envelhecer -, Michael Jackson sempre foi mais uma ideia do que um ser humano. Quase uma década depois, sua imagem extraordinária perdura como se ele nunca tivesse nos deixado.

Agora, uma nova exposição na National Portrait Gallery, em Londres, que ficará aberta ao público até 21 de outubro, busca medir o impacto e alcance de Michael Jackson enquanto inspiração e artefato cultural. “Michael Jackson: On the Wall”, com curadoria de Nicholas Cullinan, ocupa 14 salas e reúne a obra de 48 artistas, das telas feitas em silk-screen por Andy Warhol até uma pintura em tinta óleo de Kehinde Wiley.

Uma versão imaginária da qual o artista Hank Willis Thomas se apropria é uma das peças mais chocantes da exposição, “Time Can Be a Villain or a Friend (1984/2009)”. Nela, vemos uma versão de Michael Jackson com o tom de pele original, um bigode finíssimo e um penteado mais cheio.

No catálogo, Thomas explica que se trata apenas de uma ilustração do cantor feita para uma edição de 1984 da revista Ebony, um vislumbre do que seria a aparência de Michael Jackson no ano 2000. É, de longe, a obra mais crítica de “On the Wall’s”: a imagem, antes tão cheia de orgulho e esperança, tornou-se agora uma denúncia, assombrando a exposição com acidez.

Nesta era pós-racial e pós-Obama, de ressurgimento do populismo, a sensação que temos é que ser branco ou negro é realmente importante. Isso nos proporciona um fascinante momento para reavaliar a imagem de Jackson enquanto fundamentalmente “negro”, mas, ao mesmo tempo, como uma figura de transcendência racial, ou uma monstruosa profanação. Essas perspectivas diferentes são observadas em toda a exposição.

‘Equestrian Portrait of King Philip II’ (2010), de Kehinde Wiley, tem sua composição inspirada numa obra de Ruebens. Foto: Galeria Stephen Friedman, Londres e Galeria Sean Kelly, Nova York.

No catálogo, a crítica Margo Jefferson chama Michael Jackson de “deus pós-moderno da ilusão”, destacando “as emoções tão viscerais que ele despertava (e continua despertando) em nós!”. Ela antecipa a contribuição severa da ensaísta e romancista Zadie Smith nas páginas seguintes. Zadie escreve a respeito da preocupação inicial de sua mãe com o cantor: “Acho que os Jacksons representavam a possibilidade de o negro ser lindo, de sermos adorados em nossa negritude – ou até reverenciados”.

Mas, ela acrescenta, “Quando comecei a reparar em Michael – mais ou menos em 1980 -, minha mãe não queria mais saber dele, por motivos que nunca expôs, mas que logo se tornaram bastante claros. Para mim, ele logo se converteu numa figura traumática, envolta em vergonha”.

Críticas desse tipo cometem o equívoco de reduzir Michael Jackson ao papel de embaixador tribal numa sociedade erguida a partir de ideias demasiadamente simplificadas de raça e identidade de gênero que sua própria arte e representação de si mesmo sempre questionaram. O homem que compôs “We Are the World” tinha uma visão idealista e expansiva de nossa humanidade comum.

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Um ‘paletó de gala’ criado para Michael Jackson pelo estilista Michael Lee Bush traz utensílios de cozinha.  Foto: John Branca/Julien’s Auctions.

Uma das contribuições mais interessantes da exposição “On the Wall” é a série de quatro dípticos de Lorraine O’Grady, “The First and Last of the Modernists (Charles and Michael)”. Feitos a partir de fotografias ampliadas do poeta francês Charles Baudelaire, do século 19, e de Jackson em poses semelhantes, tingidas com diferentes tons pastéis, essas peças abordam de maneira divertida a questão do espelhamento.

“Quando Michael morreu, tentei entender por que eu estava chorando como se ele fosse um parente”, explicou Lorraine numa entrevista durante a abertura da exposição, em junho. “Percebi que a única pessoa que eu poderia comparar a ele era Baudelaire”, disse ela, referindo-se à sexualidade ambígua e à propensão a usar maquiagem como pontos em comum.

Mark Ryden retrabalhou sua arte de capa de 1991 para a capa do álbum de Michael Jackson,

Mark Ryden retrabalhou sua arte de capa de 1991 para a capa do álbum de Michael Jackson, ‘Dangerous’, apresentando-a como obra de arte original numa moldura elaborada. Foto: Acervo particular/MJJ Productions, via Paul Kasmin Gallery.

“Mas o mais importante é que ambos tinham uma ideia elevada do papel do artista”, acrescentou Lorraine. “Se Baudelaire imaginava explicar o novo mundo em que estava vivendo para aqueles ao seu redor, Michael tinha uma visão ainda mais elevada: imaginava ser capaz de unir o mundo todo por meio da música”.

Ninguém nunca entenderá o fenômeno Michael Jackson.

Lyllyan

Fonte: O Estadão