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Reflexo distorcido da cultura pop de massa, sósias de Michael Jackson se tornaram tão comuns na paisagem do entretenimento popular quanto os de Elvis e Raul Seixas. Essas figuras complexas ainda merecem estudo sério para saber o que se passa em suas cabecinhas. Enquanto este não sai, vale conferir a HQ baiana Billy Jackson, que tem lançamento nesta terça-feira, 17, na RV Cultura & Arte.

Ilustrada pelo multipremiado cartunista de A TARDE Cau Gomez, a HQ é uma adaptação do escritor baiano Victor Mascarenhas para um conto de sua própria autoria, Superstar, publicado em seu primeiro livro, A Insuportável Família Feliz (Editora P55, 2011).

A iniciativa de verter o conto de Mascarenhas para a linguagem dos quadrinhos foi uma sugestão do próprio Cau: “Li o conto e fiquei superempolgado com a história. No dia seguinte liguei pro Victor com a proposta da adaptação”, conta o artista.

“Eu estava mesmo devendo uma HQ dessas”, percebe Cau, que tem algumas HQs curtas no currículo – e agora conta com Billy Jackson como seu primeiro álbum.

No livro, Mascarenhas e Gomez contam a história de Agnaldo, um típico jovem preto, pobre e da periferia de Salvador que se encanta com Michael Jackson quando ele estoura com Thriller (1983). Um belo dia, ele entra em um armário – que, se for metafórico, a HQ não deixa claro, mas talvez isto não seja importante para a narrativa em si.

Quando sai do armário – sob  ameaças de “corretivo” do  pai -, Agnaldo já surge, glorioso, como Billy Jackson. De leitura ágil, a HQ segue a trajetória do sósia em paralelo à do ídolo. E vai mostrando como o processo de transformações bizarras, decadência e morte precoce se reflete em Agnaldo/Billy.

O resultado é uma HQ que, para além da beleza plástica e da narrativa enxuta, oferece uma visão desencantada – ainda que terna – da adoração cega a ídolos de barro. Destaque também para o aspecto sujo e deprimente das ruas de Salvador, perfeitamente captadas no papel pela arte de Cau Gomez.

Fascínio pelo fake

“Na verdade, não me baseei em nenhum cover específico de Michael Jackson”, conta Victor Mascarenhas. “É essa coisa do fake, da reinvenção, que me atrai. Meu ultimo livro (Xing Ling: Made in China, Solisluna, 2013)  é sobre isso também: a falsificação da baianidade, o fake baratinho”, acrescenta.

Para Victor, Agnaldo é um “pobre preto sem perspectivas, que  vê em Michael Jackson a chance de se transformar em outra pessoa e ter um protagonismo na vida”, observa.

“Agnaldo é um excluído. A única forma dele se sentir aceito é imitando seu ícone”, ecoa Cau Gomez. “Acompanhando a transformação de Michael, ele deixa de ser Agnaldo e vira Billy, seguindo a decadência do ídolo, até que ele morre. Como uma pessoa que transformou a vida para acompanhar a de outra reage quando essa pessoa morre? Essa é a grande questão dessa história”, afirma Victor.

“Sempre fui muito fã do Michael, mas também fiquei muito chocado quando ele começou a se metamorfosear daquela forma quase kafkiana”, conta Cau Gomez. “Pareceu uma coisa incontrolável. Cheguei a ter repulsa do ser humano que ele se tornou. Mas consigo separar a produção musical dele desde criança dessa coisa toda”, afirma.

Publicação bem cuidada, Billy Jackson sai bancada 100% pela RV Cultura & Arte, sem edital.

Só lendo para saber se o livro é bom ou não.

Lyllyan

Fonte: A TARDE