Olá,

Há 150 anos, nascia, em Leicester, na Inglaterra, o garoto que, mais tarde, seria chamado de Homem Elefante. Joseph Merrick – apesar de toda a lenda que diz que sua mãe foi pisoteada por um elefante enquanto o carregava em seu ventre – nasceu sem nenhuma anormalidade aparente.

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Seu corpo começou a se transformar quando ele tinha cerca de 5 anos de idade, mas as mudanças eram imperceptíveis ainda e ele vivia a vida que qualquer criança de sua idade viveria. Foi por volta dos 12 anos que a maior tragédia aconteceu: sua mãe morreu de broncopneumonia.

A morte de sua mãe mudou tudo. Não se sabe a relação de uma coisa com a outra, mas foi só depois da morte dela que as deformações no corpo começaram a se acelerar.

Na  época, ninguém sabia dizer o que havia de errado com o cara, mas hoje, imagina-se que ele sofria de uma doença degenerativa rara, chamada Síndrome de Proteus. O pai de Merrick se casou novamente e a madrasta maltratava muito o garoto que, revoltado, fugiu de casa e passou a se apresentar nos circos de horrores como o “Homem Elefante”.

Hoje em dia a gente acha que tudo isso é muito politicamente incorreto e tudo mais, mas, naquela época, os chamados freak-shows eram atrações muito populares e o que havia em Londres — onde Merrick foi a principal atração — era frequentado tanto pela escória do cais do porto quanto por membros da família real britânica. O local onde essas exibições aconteciam, inclusive, ficava em frente ao hospital de Londres. Esta foto que você vê foi tirada poucos anos atrás e mostra o local exato onde rolavam estas apresentações.

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Foi lá que Merrick chamou a atenção de Frederick Treves, um médico que, interessado em seu caso, ofereceu ao “Homem Elefante” uma moradia, uma amizade e — o mais importante — o respeito digno a qualquer ser humano.

Foi durante a época em que morou com Treves que Merrick passou os dias mais felizes depois da morte de sua mãe. Tratado como um ser humano, ele passou a encantar as pessoas com sua boa educação e seu bom caráter.

Em suas anotações, Treves, que receberia a Ordem dos Cavaleiros do Império Britânico e ostentaria um “sir” antes de seu nome, tentava de todos os modos entender — não apenas Merrick, mas, sobretudo — o ser humano com todos os seus preconceitos e idiotices.

“Uma coisa sempre me entristeceu em Merrick era o fato de que ele não era capaz de sorrir. Fosse qual fosse sua alegria, seu rosto permanecia impassível. Ele era capaz de chorar, mas não era capaz de sorrir.”

Por causa de seu corpo, as tarefas mais simples eram quase impossíveis para Merrick. Quando ia para a rua, ele tinha que sair encapuzado para não causar alarme das pessoas (a foto acima mostra o capuz que Merrick costumava usar).

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Para dormir, por exemplo, ele não podia se deitar ou o peso de seu crânio fecharia sua traqueia. Merrick dormia sentado ou agachado, com as mãos agarrando as pernas e a cabeça apoiada sobre os joelhos.

A sensibilidade de Merrick era notável, assim como seus dotes artísticos.

Apenas uma de suas mãos era hábil, mas foi com ela que ele construiu uma maquete da igreja que via do hospital em que morava. Hoje a igreja permanece em exibição no mesmo hospital que abriga seu esqueleto.

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No lugar onde passou os últimos dias de sua vida, no Hospital Real de Londres, funciona um museu que abriga vários artefatos e documentos que pertenceram a Merrick.

Foi justamente durante o sono, aos 27 anos de idade, que Merrick morreu. Sir Treves atesta que nos últimos anos de sua vida, a doença se acelerou.

Na manhã de 11 de abril de 1890, Merrick foi encontrado morto. Aparentemente, durante o sono, a cabeça dele tombou para trás e seu peso provocou uma fratura em seu pescoço.

A história de Merrick foi adaptada para o cinema pelo cineasta David Lynch em um filme lançado em 1980 em que John Hurt interpreta o protagonista.

Recentemente, uma encenação da vida de Merrick ficou em cartaz e quem fazia o papel do Homem Elefante era o galã Bradley Cooper que levou um baile pra dar credibilidade à sua interpretação.

Em 1980, o cantor David Bowie ficou em cartaz por alguns meses na Broadway com uma encenação elogiada da vida do “Homem Elefante”. A peça saiu de cartaz depois da morte de John Lennon porque Bowie ficou abalado com o assassinato do ex-beatle.

Reprodução/ Joseph Carey Merrick Tribute Website

Depois de uma campanha que durou três anos, no dia 15 de maio de 2004, o prefeito de Leicester, cidade natal de Merrick, concedeu uma placa de granito com letras folheadas em ouro em homenagem a ele. Na placa, esta que você vê na foto acima, Joseph Carey Merick é chamado de filho de Leicester e de “um verdadeiro exemplo de bravura e dignidade para todos os povos, em todas gerações”.

Reprodução/Pete Marsden

O pesquisador britânico Pete Marsden, dono de um dos maiores sites em homenagem a Merrick, tentou reconstruir digitalmente os traços de Merrick de modo a intuir como ele seria se nunca tivesse manifestado a doença.

“Observando uma fotografia de Merrick tirada em 1884, comecei a manipular a imagem de modo a revelar o que estava escondido. O resultado é uma fotografia de como Joseph deveria ter sido. Descobri que, no momento em que aquela foto foi tirada, Joseph estava sorrido de uma maneira calorosa e afável: uma amabilidade totalmente recoberta pela deformidade.”

Havia um poema, escrito pelo inglês Isaac Watts, que Merrick gostava de colocar no fim de todas as cartas que escrevia. É com ele que gostaríamos de encerrar a nossa homenagem aos 150 anos de Merrick.

Reprodução/ Elephant Man (David Lynch, 1980)

Doença muito triste!

Fonte: R7