Pense rápido: qual é a capital do Congo? Se você não souber a resposta, sabe onde procurá-la. E, muito provavelmente, não fará isso em um atlas escondido na estante, mas sim recorrendo à internet. É assim desde que a rede de computadores se popularizou e virou um imenso banco de dados, em que os usuários podem encontrar praticamente qualquer coisa. A busca on-line, contudo, está provocando mudanças na forma como o cérebro trabalha. Pela primeira vez, cientistas conseguiram comprovar os efeitos dessas transformações por meio de experimentos com 168 voluntários. Os resultados, publicados hoje na revista Science, mostram que a web está se tornando a primeira fonte de memória transacional das pessoas. Com isso, muitas delas acabam fazendo menos esforço para guardar informações.

A ideia de memória transacional foi proposta na década de 1930 pelo psicólogo norte-americano Dan Wegner. O especialista definiu o termo com base na forma como os humanos usam seus semelhantes para o armazenamento de memórias externas. “Assim, se há alguém no trabalho que sabe sobre determinado assunto, nós não nos preocupamos em aprender. Ou se há um amigo expert em esportes, recorremos a ele quando temos dúvidas sobre esse tema”, exemplifica Betsy Sparrow, professora do Departamento de Psicologia da Universidade de Columbia. Betsy é uma das três autoras da pesquisa Os efeitos do Google na memória: consequências cognitivas de ter a informação ao alcance dos dedos.

Para avaliar como o boom da internet afetou a cabeça dos usuários, a pesquisadora e outras duas colegas norte-americanas submeteram os voluntários a quatro experimentos. No primeiro, 46 pessoas tiveram que enfrentar uma série de perguntas com diferentes níveis de dificuldade. “Quando elas não sabiam as respostas, automaticamente pensavam em seus computadores como o lugar para encontrar a solução do problema”, conta Betsy. Na segunda etapa, 60 participantes leram afirmações simples (como “O olho de um avestruz é maior do que seu cérebro”). Segundo as cientistas, as pessoas que acreditavam que as declarações estariam salvas no computador lembraram-se menos do conteúdo aprendido do que os participantes informados de que elas seriam apagadas.

Em outro teste parecido, 28 voluntários reconheceram mais facilmente informações que não haviam sido salvas na busca geral do computador ou em pastas específicas. O último experimento, com 34 participantes que guardaram as afirmações em cinco pastas diferentes, mostrou que eles lembravam-se mais do local onde o dado fora armazenado do que do conteúdo propriamente dito. “O fato de as pessoas recordarem o local onde podem encontrar a informação é muito interessante. Indica que isso pode ser fruto de uma adaptação (do cérebro)”, afirma a pesquisadora Betsy Sparrow.

Os resultados do estudo podem ser confirmados pelo hábito de qualquer pessoa. O designer Reinaldo Dimon, 27 anos, mantém uma forte “parceria” com o Google. “Normalmente, recorro à internet para conferir a tradução de uma palavra para o inglês ou a grafia de uma expressão em português”, conta. Para Dimon, a facilidade de acesso também deixou os usuários mais sossegados. “Às vezes, a gente procura coisas bobas, a conversão de centímetros para metros, por exemplo. Ficamos mais preguiçosos, deixamos os dicionários de lado e desistimos de perguntar para os colegas.”

Transformações
Mas será que esse costume pode estar, de alguma forma, prejudicando o cérebro? Para o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do Grupo Dependência de Internet da Universidade de São Paulo, o problema é a avalanche de informações a que os internautas estão expostos. “A internet despeja em nós uma quantidade enorme de conteúdo, só que nossa cabeça continua a mesma há milhares de anos”, diz o especialista. Prova disso é que, no início do século passado, os pedagogos definiram que o tempo máximo de concentração de um aluno seria de 50 minutos — a atual duração das aulas nas escolas. Hoje, pesquisas recentes mostram que a atenção se esvai em menos de 10 minutos. “Nossos sistemas mentais podem estar se sobrecarregando”, sugere Nabuco.

A psicóloga Betsy Sparrow, no entanto, não acredita nessa possibilidade. Segundo ela, o homem vai manter memórias externas, não baseadas unicamente no computador. O que pode diferir é o modelo de memorização conhecido até agora. “Quanto mais nós nos afastarmos desse padrão, que é um aspecto identificado na nossa pesquisa, mais vamos compreender o significado desse experimento que realizamos”, aposta.

Múltiplos gravadores
Entender o funcionamento da memória não é tarefa fácil, porque há diversos tipos dela. Os cientistas classificam as memórias quanto à duração e ao conteúdo, gerando uma série de subtipos. Além disso, o cérebro ainda faz cópias de lembranças para garantir que a informação não se perca. A ciência ainda não sabe quantas, mas, certamente, são mais de 100, que aumentam conforme a importância do acontecimento.

Realmente a internet,virou a salvação de todos,senão à vida das pessoas,rs.

Carol.

Crédito:Correio braziliense.