Por NUNO GALOPIM

A cultura pop/rock conheceu os primeiros passos para a construção do seu primeiro ícone no dia em que Elvis Presley pisou os estúdios da Sun Records, em 1954. Em mais de seis décadas de música, a cultura pop criou ícones que, com todo o poder da música e da sua mediatização, ajudaram a mudar a sociedade. No momento em que Lady Gaga edita um novo álbum, escutamos figuras que mudaram o mundo.

Porque o mundo é composto de mudança

Elvis Presley chocou a América quando, ao som de Hound Dog, os pequenos ecrãs de televisão mostravam um par de joelhos numa agitação nunca antes vista. Os Beatles faziam correr tinta pelos cortes de cabelo menos curtos (e que logo geraram descendência). Nos tempos da guerra no Vietname, Bob Dylan fez mais pelo discurso político em muitas das suas canções do que muitos políticos de carreira. David Bowie chegou às páginas dos jornais quando, numa histórica declaração em inícios dos anos 70, afirmou que era homossexual. Madonna falou de sexo e sexualidade para plateias vastas, os media levando depois as suas visões mais além. O sucesso global de Michael Jackson diluiu as fronteiras da cor da pele e o ser ou não ser negro deixou de importar na descrição da música que fazia… Lady Gaga falou publicamente contra políticas de discriminação. A lista de factos e gentes é extensa, vincando quão marcante é o somatório de contribuições que, desde os anos 50, a música popular tem feito chegar à sociedade que, assim, não se limita a trautear as canções de sucesso mas a vestir, e mesmo assimilar, as novas ideias que veiculam. No fundo, os ícones que a música pop elege são, além de estrelas da indústria do entretenimento, fontes (e focos) de revolução social. Para o melhor ou para o pior, não interessa. Porque, na verdade, e contra os cíclicos episódios de retorno do conservadorismo, as contribuições que a sociedade ganhou da música popular olharam sempre em frente.

O que faz um ícone? E o que dele pode fazer porta-voz dos anseios de mudança de cada geração?

Fazer um ícone nem é coisa difícil. De resto, se há receita habitualmente eficaz (se bem que por vezes falível), é a que promove a construção de casos de popularidade com pontos de partida em zés-ninguéns que, penteados, arrumados com os trapinhos hipster da moda e com uma agenda certeira de exposição mediática, põem multidões a cantarolar a melodia do momento e assim vendem discos como pãezinhos quentes, certo sendo que, na esmagadora maioria destes fenómenos feitos à medida do gosto do instante, o sucesso é acontecimento fugaz, o esquecimento chegando quase sempre perante a chegada de novo rosto ou nova tendência, a memória do que foi não voltando a ser, muitas vezes acabando esses “casos” de grande popularidade remetidos para os baús do esquecimento. Ainda se lembram dos Bros? Ou mesmo de uns Modern Talking? Pois é… Vendiam que se fartavam, mas hoje podemos oferecer uma queijadinha a quem na rua perguntemos se  lembram de mais do que um par das suas canções sem o risco de ir à falência por ter de comprar bolinhos para satisfazer a premissa deste desafio.

Ser ícone, de facto, pede mais do que um simples jogo de maquilhagem em volta de um palminho de cara. Pede personalidade. Pede alguém que traga algo de novo ao cenário que o acolhe. Pede capacidade em agir num contexto. E pede um texto que faça a diferença. A imagem, na verdade um elemento-chave na afirmação de um ícone, não é senão a cereja sobre o bolo. E sem um bom bolo, não há cereja que faça a festa.

Elvis Presley não foi a primeira estrela do rock’n’roll. Mas foi o primeiro ícone global de uma cultura que acabaria integrada na vivência dos baby boomers na América dos cinquenta. Viveu num limbo entre uma certa rebeldia e uma atenção para com códigos ainda vigentes, a mediatização da sua passagem pelo serviço militar e a imagem rebelde, mas sem aparentes causas, que passavam pelos seus filmes garantindo esse jeito invulgar de agradar aos gregos e troianos de há cinquenta anos.

Bob Dylan apostou numa mais evidente política de ruptura, encontrando no desencanto antibelicista da juventude americana dos anos 60 a plateia certa para trovas que não se limitaram a mostrar que a folk podia dialogar com a cultura rock’n’roll, mas que a canção podia ser uma arma incómoda para os poderes instituídos. Ao cantar The Times They Are a-Changin’ (no fundo, os tempos estão a mudar), sublinhava a descoberta de um novo poder que os mais jovens encontravam numa cultura que nascia entre si e para si (mas capaz de se fazer escutar mais adiante). Os Beatles contam-se entre os primeiros herdeiros naturais dos “ensinamentos” de Dylan, na sua forma pessoal de contar histórias e veicular ideias nas canções o grupo encontrando novas pistas e caminhos que tornariam a sua música mais intensa de então em diante. Dylan abre horizontes a John Lennon, que, mais tarde, escutando outras referências e experiências, se afirmaria como um dos mais incómodos dos cantautores de inícios dos anos 70, uma contenda surgindo inclusivamente entre o ex-beatle e a Administração de Richard Nixon.

Já nos anos 80, o aparecimento do teledisco (e da MTV) deu à música novas armas fundamentais para a construção de ícones. Duran Duran, Madonna, Michael Jackson, Prince, são figuras da nova idade da imagem em movimento para o pequeno ecrã. E, de repente, qualquer imagem (e todo o jogo de intenções que poderia eventualmente transportar), chegou mais depressa, mais longe.

Já em final dos anos 90, a massificação da Internet como nova ferramenta de comunicação global mudou a forma de construir fenómenos, propondo a cada um a liberdade de escolher o seu ícone, espelho, afinal, da sua identidade. Hoje são raros os ícones com essa expressão, a cada nicho, a cada tribo, correspondendo os seus heróis, as suas causas, as suas bandeiras. Daí a excepcionalidade do fenómeno de popularidade criado por Lady Gaga, que hoje representa o único caso de sucesso pop com semelhante dimensão, as estreias online de telediscos como Telephone ou Alejandro tendo gerado acontecimentos apenas comparáveis aos que em tempos, e via televisão, surgiam motivados pelas estreias dos vídeos musicais de Michael Jackson. Na era da fragmentação e pulverização das atenções por toda uma multidão de autores, intérpretes e bandas, o fenómeno Lady Gaga representa o que parece ser uma manifestação, num tempo moderno, de uma expressão pop com dimensões de outras épocas. Sendo que, todavia, a própria cantora faz questão de sublinhar com um discurso seu, que vinca o “aqui” e o “agora“, toda uma agenda de causas que entretanto foi abraçando, combatendo preconceitos, apoiando minorias. Tudo isto usando ferramentas de comunicação e índices de popularidade que servem as maiorias.

A história de seis décadas que a música pop(ular) já escreveu dá-nos uma impressionante galeria de nomes que, além de se terem afirmado como figuras de grande popularidade, acabaram por agir sobre a sociedade, ajudando a transformá-la. Não apenas em campanhas de solidariedade para grandes causas (que, de facto, congregam recorrentemente a colaboração de figuras do universo pop/rock). Mas antes por abrirem caminhos, mudarem hábitos, transformarem opiniões. Afinal, muitas visões que pareciam coisa no patamar da ousadia num tempo, acabaram integradas no mapa dos comportamentos de episódios que se escreveram adiante. Alguém hoje teme um homem de cabelos compridos? É certo que nem de longe está entre as suas mais importantes contribuições para a sociedade, mas os Beatles ajudaram a mostrar que, na verdade, não é o corte de cabelo que importa, mas antes o que pensa e como age quem o usa.

Muito interessante este artigo.Realmente a sociedade sofreu varias transformações e vem sofrendo influenciada pelos grandes ícones da música e temos a internet que contribui muito para que cada um posso ter seu espaço e tendo a oportunidade de atribuir mais informação sobre a diversidade musical.

Carol.

Fonte: Dn.