Aos dezesseis anos de idade, eu conheci a fascinante história de Fernão Capelo Gaivota – uma ave que, diferente do resto do bando, vivia uma busca pessoal pela perfeição. Enquanto os outros passavam o dia inteiro sobrevoando as águas salgadas do oceano para “caçar” alimento, ele gastava as horas do dia, até as funduras da noite, aprimorando o seu voo. A cada nova conquista, desejava ir mais longe: voar mais alto numa velocidade ainda maior..

Yvette Maria Moura

Inspirada por Michael Jackson – que o tinha como livro de cabeceira e vivia uma busca semelhante como artista (não foi à toa que se tornou o Rei do Pop) –, acabei adotando como lema de vida a frase de Fernão: O paraíso é ser perfeito. Mas ao contrário do ídolo, acreditava que aquela busca desenfreada da personagem infanto-juvenil fazia referência à transcendência espiritual.

Anos mais tarde, lendo a segunda obra da Coleção A Vida No Mundo Espiritual, do espírito André Luís (autor do clássico Nosso Lar), foi que compreendi: a perfeição não se alcança de uma hora para outra, como num passe de mágica. “Em tudo há uma ciência de começar”, diz o instrutor espiritual em Os Mensageiros, explicando que existe todo um processo de busca e aprimoramento pessoal para se atingir a excelência. E uma existência apenas, de fato, parece muito pouco para se alcançar a plenitude do ser…

Ao longo da vida na Terra, passamos por diversos estágios e etapas, que têm por finalidade uma determinada experiência. As próprias fases e os ciclos experimentados parecem nos convidar a vivências tão complementares quão edificantes; avançando tanto espiritual quanto moralmente.

Sinceramente, penso estar chegando a um momento da vida em que as perdas vão ficando mais evidentes, e os ganhos também. Então acolhê-las, e aceitá-las como ocorrências naturais da experiência terrena, já nos predispõe ao aprendizado.

Quando, de fato, tivermos compreendido a dinâmica celeste, iremos abrir os olhos e enxergar os ganhos que as perdas nos oferecem, além de carências. Perder, então, já não será mais a sina dos fracos, mas poderoso instrumento dos fortes – que descobrem, nas ausências, todo potencial de que são dotados.

Neste momento, estou aprendendo a perder (provavelmente porque já ganhei muito!). E antes que as carências me atormentem, eu as observo de frente, sem medo, e me antecipo à sua ação degenerativa. Em um movimento proativo, estou aprendendo a me livrar dos excessos que carrego na alma; das extravagâncias e das excentricidades todas, que me insuflam o ego e me fazem sofrer posteriormente.

Aprendendo a aceitar o casulo ao antever o voo das borboletas; aprendendo a sufocar as lágrimas para desenhar sorrisos em outras faces; aprendendo a deixar os anseios em segundo plano para proporcionar a outrem um momento feliz

Aprendendo a abrir mão de alguns sonhos para que outros possam sonhar também; aprendendo a refrear os meus passos para que avancem os que estão com pressa e vêm à retaguarda; aprendendo a baixar o tom de voz, enquanto vociferam os tolos, os doentes da alma, os desequilibrados e os animais

Aprendendo a me desfazer do que já possuí e que, hoje, não tem mais utilidade em minha vida, mas que ainda carrego como um peso, um incômodo apêndice; aprendendo a libertar do meu julgo todos os que já se foram, para outras paragens, mas ainda permanecem jungidos a mim, feito velhos fantasmas; aprendendo a libertar os que me aprisionam, libertando-me deles

Afinal, como nos abrir para o melhor, se não soubermos doar o que nos parece bom? Como estar pronto para as novidades, se não trouxermos mãos vazias? Como valorizar o que possuímos, hoje, se já não tivermos, um dia, perdido o que nos era caro? Como viver o dia de hoje, se não permitirmos que o passado se vá?

Sobre a autora

Yvette Maria Moura

Jornalista, repórter fotográfico, blogueira, escreve crônicas, artigos e poesias

Fonte: O Jornal Web.

Kelinha.