Olá,

O tempo não para, e lá se vão 20 anos da morte de Cazuza. Foi no dia 7 de julho de 1990 que o polêmico roqueiro saiu de cena, mas o poeta continua vivo graças à sua obra e ao trabalho que a mãe, Lucinha Araújo, realiza na Sociedade Viva Cazuza. A ONG, voltada para crianças e adolescentes portadores de HIV, também completa duas décadas em outubro e é o xodó desta mulher, que dá a 20 internos o mesmo carinho oferecido ao único filho, que morreu de Aids.

Twitter é a nova ferramenta para conseguir parceiros

A instituição, única do gênero na cidade do Rio, tem um custo mensal de R$ 70 mil. Ultimamente, as contas têm fechado no vermelho. Mas isso não reflete no atendimento às crianças. Aos poucos, a sociedade se adapta para conseguir parceiros. Pelo Twitter (@VivaCazuza), já conseguiu nutricionista voluntário, tradutor para o site (www.vivacazuza.org.br) e espera receber um freezer, que já está prometido.

Quando foi criada, a Sociedade Viva Cazuza tinha como objetivo dar apoio ao Hospital Gaffrée e Guinle, na Tijuca, que era referência no tratamento da Aids. Foi em 94 que Lucinha criou a Casa de Apoio, na Rua Pinheiro Machado, em Laranjeiras, por onde já passaram cerca de 70 moradores. A foto de cada um, tirada no dia em que chegaram à ONG, está pendurada nas paredes na sala de jantar da instituição. Só falta o retrato de A., a caçula de 11 meses, que chegou há 15 dias:

– Tiramos a foto, vou revelar. Ela já engordou 1,5 quilo – diz Lucinha, que estava com saudade de cuidar de um neném. – Há anos não tínhamos um bebê. Mas meus meninos também são maravilhosos. Alguns dão trabalho na hora de estudar, mas são ótimos.

Os moradores da Casa de Apoio têm entre 4 e 17 anos. Alguns têm família, mas preferem morar na ONG:

– Estou há 13 anos na casa. Tenho tios, irmã, que às vezes me visitam. Mas moram longe, em São Gonçalo. Sinto saudade, mas aqui tenho comida, estudo, amigos. Fico no computador, jogo PlayStation – enumera B., de 15 anos.

Todos as crianças da Viva Cazuza estudam em escolas particulares, com bolsas parciais. Os três adolescentes fazem curso técnico na Faetec. A ONG também mantém o Programa de Adesão ao Tratamento, que acompanha 140 pacientes da rede pública:

– São adultos que não entendem a prescrição, não tomam a medicação por medo de descobrirem que têm a doença, há conflito religioso. Isso afeta o tratamento, acabam tendo doenças oportunistas – explica Christina Moreira, coordenadora de projetos da Sociedade Viva Cazuza, que ajuda a organizar as contas da casa. – Os maiores gastos são com mão de obra e encargos sociais. Temos 24 funcionários. A casa funciona 24 horas por dia, 365 dias no ano.

Quando começou, há 20 anos, Lucinha achava que sua ONG serviria de estímulo para outras pessoas. Mas agora sabe por que seu trabalho continua sendo pioneiro:

– É muito caro.

Aos 73 anos, ela não desanima. O direito autoral do filho, usado para cobrir as despesas, está cada vez mais escasso:

– Na época do filme fizemos um bom caixa, sustentou por meses. Agora a conta fica no vermelho. Mas o serviço é de qualidade. Quando não for mais assim, fecho as portas. Não vou ter um depósito, fazer criança sofrer. Aqui, cada um tem a sua identidade – diz Lucinha. – Não faço isso por que sou boazinha, não. Faço por que me faz bem. Venho aqui todo santo dia, quero saber o que comem, como estão indo na escola.

 Como em qualquer casa que tem adolescente, na Viva Cazuza não faltam pedidos para chegarem mais tarde em casa. Eles até podem, desde que digam onde e com quem vão. Namorados (as) podem visitar a instituição, mas não dormem lá. Quem faz 18 anos pode continuar na ONG, mas muitos optam por sair, para terem privacidade. O contato, no entanto, permanece.

Recentemente, uma falha do Ministério da Saúde provocou um desabastecimento de medicamentos que, por pouco, não prejudicou o atendimento das crianças. A situação já está sob controle.

– O desabastecimento é fruto da banalização da Aids. Houve uma queda na prevenção e isso acaba aumentando os índices de contaminação – teme Christina.

Brasil registra 35 mil novos casos de Aids por ano

Presidente do Grupo Pela Vidda, o psicanalista George Gouvêa lembra que a Aids continua matando 12 mil pessoas por ano e que 35 mil novos casos são registrados a cada ano. Para ele, a Sociedade Viva Cazuza é um símbolo na luta contra a doença:

– Qualquer instituição pública teria gasto astronômico para fazer o que a ONG faz. E não teria a mesma qualidade. O governo exige muito de quem presta esse serviço, mas o repasse não cobre nada disso. A Viva Cazuza tem papel relevante, de vanguarda, é um exemplo de administração.

Cazuza, você foi cedo demais, amo você!!!!!

Abs,

Lyllyan

Fonte: O Globo