Olodum pirou de vez?


Escrito por: James Martins.

 

Faça o teste: leve um extraterrestre ao Pelourinho. Dê um rolê. Depois pergunte ao ET quem é o artista baiano mais importante para aquela área da cidade. A resposta, aposto um real de big-bang, será: Michael Jackson! Sim, meus amigos, o Pelourinho está sofrendo uma overdose do preto mais branco do mundo. Uma micose que, espero, passe logo. Michael Jackson está tão cotado quanto o Senhor do Bonfim, os berimbaus e as baianas de acarajé como símbolo, senão de Bahia, ao menos de Pelô.

Enquanto o fenômeno de exploração da imagem alheia se restringia aos ambulantes ou a uma lojinha chata que vive passando o vídeo-clipe do rei do pop, sem trégua (ali no meio da ladeira)…, enquanto era apenas isso, era apenas lamentável, engraçado e ridículo. Mas, se a crise de identidade atinge também o Bloco Olodum, este sim um ícone soteropolitano de alta voltagem, aí a coisa é para sentar no meio fio e chorar. Mas, estamos num tempo em que não adianta chorar (Drummond levemente modificado), a vida é uma ordem até para os sacizeiros que se debatem esmilingüidos na Rua das Flores.

O tempo é de morder, não de soprar. Por isso que faço a pergunta desolada e indignada: o Olodum pirou de vez? Sim, porque, também na sede da famosa agremiação, projetada por Lina Bo Bardi, o que se vê preferencialmente não é Neguinho do Samba, nem Germano Meneghel, nem Vivaldo da Costa Lima, nem o próprio Olodum. É Michael Jackson! Pire aí! 

Talvez seja necessária uma retrospectiva. Em 1996, pelas mãos de Spike Lee, Jackson veio ao Brasil gravar o vídeo-clipe da canção ‘They Don’t Care About Us’. As locações: Pelourinho e Morro Dona Marta (Rio de Janeiro). Participação especial: Banda Olodum. Frisson natural, euforia, tietagem, provincianismo, orgulho, tudo junto e misturado. Lembro que eu estava em aula na hora em que gravavam o clipe. Todas as resenhas (e o Wikipedia), desde então, confirmam: “O Olodum tornou-se conhecido mundialmente graças ao rei”. Certo. Mas, vamos pensar um pouco, não é simples assim.

A potência dos tambores comandados por mestre Neguinho do Samba também ajudaram muito ao artista americano, que andava em baixa, desbotando, e precisava inventar alguma arte para reacender. Já o Olodum brilhava, no auge, naquele 1996. Não à toa, alguns anos antes, Paul Simon também gravava com eles a magistral The Obvious Child. E afinal, porque um grupo formado no “periférico-centro-histórico” de Salvador, por pessoas em situação de extrema pobreza material, viria a interessar ao Rei do Pop ou ao parceiro de Art Garfunkel? Ora, porque era (é) ótimo! E o que fazia a maravilha do Olodum, seu som contagiante, sua revolta e sua dança era justamente aquilo que agora está sendo substituído pela ganância e pela burrice: originalidade.

Todo menino do Pelô, além de saber tocar tambor, tinha um umbigo. Uma corda de caranguejo que o ligava ao mangue do Maciel e extraía de lá uma mordida potente. Digressão: falar em mangue, a analogia com o MangueBeat pernambucano é inevitável (e o próprio Gilmar Bola 8 me disse, em pleno Curuzu, que Chico e ele começaram imitando o Olodum!). Mas, voltando ao Pelourinho, a gênese do bloco foi propiciada por um mergulho nas nossas possibilidades mais profundas, nuas e cruas (em que pesem a Jamaica e o Egito). Dali saiu um canto que não é nem gospel nem bel; um reggae que não é reggae; um samba que não é samba; e um samba que é reggae. Se o mundo se curvou ante os nossos tambores, se os gringos de afina(va)m na folia, é por causa dessa imodéstia criadora que agora querem trocar por alguns trocados adquiridos com a venda de DVDs e camisetas do finado Michael Jackson. É uma aberração e tem que parar, João Jorge, pelo amor de deus. 

Se digo “nossos tambores” é porque me sinto também portador da glória e da força do Olodum,como do Ilê e dos outros blocos afro. E este orgulho se estende inclusive ao fato de Jackson ter vindo gravar o tal clipe aqui, é claro. Dia desses, andando pela Lapa, parei para assistir ao ‘We Are The World’, na TV de um ambulante, e fiquei emocionado pensando no fato de Michael e Simon terem vindo beber na fonte do Tanque do Meio (bairro onde nasceu Neguinho do Samba), do Largo do Tanque, do Curuzu, etc. E, minutos depois, já andando no Pelourinho, olhei para dentro da sede do Olodum e lá estava Michael Jackson, radiante, como um falso Caramuru, roubando a cena na bilionésima vez em que o clipe rodava. Perdemos a referência.

Se a postura do glorioso grupo fosse esta subalternidade desde o início, Michael Jackson nunca teria vindo atuar com o grupo. Ele, o branco-negro, veio buscar aquilo que o grupo tinha para lhe oferecer (e era muito). Como agora o Olodum oferece a ele próprio, MJ simplesmente não teria o que vir buscar. E bye-bye sucesso internacional. Essa exploração da notoriedade de coadjuvar para Michael Jackson, estilo papagaio de pirata, pode ser boa em curto prazo, mas é uma pesca predatória. A fonte seca. Os meninos que seriam os futuros compositores serão camelôs (nada contra camelôs). E o Olodum vai continuar como está, perdoem-me a franqueza, vivendo de verão em verão e de copa em copa. Não podemos trocar nossas riquezas por espelhos e bugigangas, como os índios das aulas de história. 

E não adianta falar em sobrevivência ou dificuldades financeiras. Na verdade, tudo o que estou dizendo aqui é justamente pensando em evitar a morte de um dos nossos maiores catalisadores de energia vital. O Olodum vai acabar com falência múltipla dos órgãos se deixar de lado o nosso lado, e o lado artístico, para se transmutar em uma reles jukebox ou máquina caça-níqueis. A idéia estúpida de fazer de Michael Jackson um símbolo do Pelourinho pode soar engraçada quando vem de Léo Kret, mas a gente já se acostumou a esperar mais do Olodum. Precisamos repetir todas as manhãs, em jejum, com Roque Carvalho: “Nossa gente é quem bem diz é quem mais dança”. Eis o que eu quero dizer: se a idéia é polir o brilho alheio para pegar uma rebarba do rabo da estrela, é preciso atentar para que qualquer sacizeiro é mais importante que a via-láctea.

Eu, que já usei este mesmo espaço para dizer várias vezes que a Bahia está baiana demais, agora tenho que afirmar que, neste caso, precisamos não perder a referência e o orgulho para que o nosso céu brilhe como naqueles anos 1990 em que a música baiana dava orgulho até em Bob Marley. É como no polêmico caso dos “alternativos de Salvador”. Se o projeto de Léo Kret, de tornar Michael Jackson um cidadão soteropolitano post-mortem vingar, ele será um autêntico alternativo daqui. Fiquei triste e preocupado quando, numa terça da bênção dessas, uma moça do Olodum me ofereceu um DVD de MJ. Pior: nem era o que tem o tal clipe brasileiro. Os estrangeiros, meus amigos, vêm aqui para ver a gente. E a gente está cada vez mais tendo menos o que mostrar graças a atitudes tolas como esta que ora acomete o bloco da sexta-feira. 

A prova de que o lado artístico está totalmente relegado na atitude de Michael Jacksonificar o Olodum /Pelô é que o clipe feito com Paul Simon, projeto musicalmente superior, em minha humilde opinião, não dá os ares de sua graça. É preciso facilitar a apoteose para os bocós. O critério é semelhante ao da imprensa que, ao falar, por exemplo, de Jorge Mautner, em vez de citar seus livros, destaca que ele é amigo de CAETANO VELOSO, para chamar facilmente a atenção do leitor desinformado e abobalhado. E assim nos tornamos brasileiros. Help Cazuza: “(…) pois assim se ganha mais dinheiro”. O Olodum pode mais. E por falar em minha opinião, a colaboração com Simon (no disco The Rhythm of The Sains) é melhor que a com Jackson justamente por que naquela tem mais Olodum que nesta.

Enquanto MJ fez uma música tipicamente sua (sobretudo a segunda parte da melodia) e acrescentou os tambores baianos, Paul Simon se afundou no samba-reggae para criar The Obvious Child. Mas essas discussões são coisas que, hoje em dia, só os muito chatos cultivam. Enfim, homenagem útil realmente seria a Neguinho do Samba. Útil mais para nós do que para ele. Mas, se ele não tinha nem plano de saúde, quanto mais estátua. Um país que ignora os seus artistas vai falir (Pound levemente modificado). Vamos tirar Michael Jackson do Pelourinho (não de nossos toca-discos nem de nossos corações, onde é o seu lugar) e botar em seu lugar um artista mais importante: o Olodum. Senão o mundo se acaba.

Fonte: Bahia Notícias

Kelinha.

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  1. Quié que esse cara quer, rapaz? Preferir “The obvious child ” a “they dont care about us”?? dizer que não é bom o Mike ter ido lá???
    Probleminha tem tratamento, viu, sr.?

  2. Bem entendo ao rapaz por querer que o povo da bahia seja reconhecido pelo seu trabalho e sucesso realmente els sao otimos, senao MJ jamais teria gravado com eles, mas em certos trechos axo q ele pegou meio q pesado né… Como bem diz as escrituras a Cesar o que é de Cesar e a Deus o q é de Deus. Pra bom entendedor meia palavra basta!

    • Rondinelly Bulhões
    • 23 fevereiro, 2011

    Quem foi que escreveu isso?

    • anele
    • 23 fevereiro, 2011

    o q é certo é q qualquer coisa em cima do nome de Michael ganha muito, outra coisa, mIhcael mais q ninguem sabia reconhecer talentos de longe, ele sabia da capacidade do Olodum e por isso veio gravar aqui, mesmo pq não foi tao facil assim neh, eu era um nenem na epoca, mas li sobre isso e sei q os politicos não gostaram muito de Michael retratar a favela e pobreza no Brasil, ué mas não é exatamente sobre isso q o tema da musica trata?! ELES NÃO LIGAM PRA GENTE?! pq se ligassem mesmo a historia seria bem diferente.

    É logico q moradores do Dona Marta e Pelourinho tem orgulho de MJ ter pisado la e ter levado tanta alegria pra eles, não é todo dia q o maior artista do mundo vem e faz um clipe num lugar onde a pobreza impera. E o Brasil tem q agradecer mesmo ao MJ por ter voltado as atenções pra nós, o turismo ganha, o povo brasileiro ganha, todos ganham!

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